GESTÃO DEMOCRÁTICA JÁ! – Fred Fernandes

A tarefa de organização do trabalho pedagógico numa escola pública longe de ser tarefa fácil requer uma sólida formação e exige do gestor um trabalho calcado no coletivo, objetivando incessantemente a autonomia, a liberdade e a emancipação dos sujeitos da educação, culminando com plena participação de todos, indistintamente, na contrução do projeto político pedagógico. No exercício de uma gestão democrática há que se trabalhar os conflitos e desencontros, as interrelações pessoais – que em geral tem o poder de minar qualquer funcionamento interno de uma instituição – e estabelecer regras objetivas e transparentes, dando igual tratamento a todos os sujeitos envolvidos no processo. O gestor deve ter clareza de que a qualidade do ensino oferecido pela escola dependerá da ativa participação de todos os seus membros, respeitando as individualidades e buscando no universo empírico de cada um novas fontes de enriquecimento do trabalho coletivo.

A escola tem por objeto de estudo a educação que, por sua vez, viabiliza a prática da gestão democrática na medida em que seu papel é dirimir a filosofia, o pensamento, o comportamento e as relações humanas das quais os alunos necessitam para a vida em sociedade, tornando-se aptos a construção de uma visão sólida e crítica da realidade buscando alternativas coletivas para os diversos problemas no âmbito social e escolar.

O trabalho pedagógico na escola é organizado – via de regra -, como uma estratégia educacional que visa a democratização e otimização do processo ensino-aprendizagem e neste sentido, é de extrema relevância que o gestor volte seus esforços para a implementação de novas formas de administração que contribuam para inserir e manter a comunicação e o diálogo na prática pedagógica docente.

Assumindo esse papel o gestor deve, por necessidade, articular os diferentes atores em torno de uma educação de qualidade em detrimento da quantidade, implicando na contrução:

“…de uma verdadeira educação com sensibilidade e também com destrezas para que se possa obter o máximo de contribuição e participação dos membros da comunidade.” Libâneo (2001, p. 102)

No processo democrático de gestão o envolvimento dos diversos profissionais do ambiente escolar nas decisões e no funcionamento da organização escolar deve ser garantido e incentivado cabendo ao gestor a criação de estratégias que viabilizem esta prática, proporcionando um melhor conhecimento dos objetivos e metas da escola, da estrutura organizacional e de sua dinâmica, favorecendo uma melhoria nas relações da escola com a comunidade e aproximando, em ultima instância, professores, alunos e responsáveis.

O modelo de gestão escolar configurado por um diretor autoritário no seu cotidiano, subserviente aos órgãos centrais da educação – seja nas esferas municipais, estaduais ou federais – e restringido portanto, a mero administrador de determinações estabelecidas por instâncias superiores, já está ultrapassado – embora ainda comum, em particular nas esferas municipais – e deve ser combatido por todos os sujeitos comprometidos com a excelência do processo ensino-aprendizagem. Neste sentido, a luta por uma escola democrática, autônoma e de qualidade ganha amplitude e relevância e a discussão de eleições diretas para os cargos de direção das escolas bem como a formação e habilitação desejáveis para ocupá-los são condição sine qua non para a construção de um projeto futuro de escola democrática.

É notório que a escola gerida democráticamente tende a vivenciar um crescimento – já a curto e médio prazo – em todos os seus aspectos: pedagógico, metodológico, ético e profissional, crescimento esse motivado e impulsionado pela transparência dos objetivos e pelo seu compartilhamento com orientadores, coordenadores, professores, pais, alunos e funcionários. A qualidade de ensino dessa escola tende a fazer toda diferença no processo ensino-aprendizagem e o processo de tomada de decisões co-participativo redireciona a escola para uma nova organização pedagógica que:

“…busca estabelecer uma relação interativa com o “fazer” escolar e se preocupa em ofertar à comunidade, em geral, e aos alunos em particular, um trabalho pedagógico que venha a formar cidadãos participativos e conscientes de seu papel na sociedade.” Veiga(2007, p. 7)

A organização e o gerenciamento do espaço escolar requerem o constante aperfeiçoamento profissional-político, científico e pedagógico de toda a equipe escolar, sem distinção. Dirigir uma escola implica em conhecimento do seu estado real, da comunidade na qual a mesma está inserida, da formação de seu corpo docente e de sua equipe pedagógica e na observação e avaliação constante do desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, analisando os resultados e compartilhando as experiências docentes bem sucedidas.

Todavia, a qualidade da educação não depende apenas de uma gestão democrática:

“…mas de um planejamento participativo e de um projeto pedagógico eficiente e contextualizado com a realidade da escola.” Veiga(2001, p34)

O projeto político pedagógico deve ser um elemento vivo e dinâmico, norteador de todo o movimento escolar, auxiliando o trabalho educativo de professores, alunos, coordenadores, orientadores e diretores, estabelecendo uma comunicação dialógica e propiciando a criação de estruturas metodológicas mais flexíveis preparadas, inclusive para a reinvenção a qualquer momento e a confirmação deste contexto só poderá se dar numa escola autônoma, onde as relações pedagógicas e humanas se completam.

No entanto, a busca pelo estabelecimento de uma gestão democrática, da construção de um projeto político-pedagógico e de qualquer ação dentro dos muros da escola passa, obrigatoriamente, pelo necessário planejamento. Planejamento é processo de busca de equilíbrio entre meios e fins, entre recursos e objetivos, visando ao melhor funcionamento de empresas, instituições, setores de trabalho, organizações grupais e outras atividades humanas. O ato de planejar é sempre processo de reflexão, de tomada de decisão sobre a ação;processo de previsão de necessidades e racionalização de emprego de meios(matérias)e recursos(humanos)disponíveis, visando a concretização de objetivos, em prazos determinados e etapas definidas, a partir dos resultados das avaliações.

Além disso, o planejamento é um suporte pedagógico que norteia todas as pretensões da escola, é ele que dinamiza a ação educativa buscando a racionalização, a problemática do contexto social e a organização escolar, portanto é uma atividade que está dentro da gestão democrática, com o propósito de evitar impasses e estabelecer caminhos que possam viabilizar a melhoria da educação.

Os percalços da gestão democrática são evidentes em qualquer escola pública exatamente por não possuir uma política educacional que trate a escola como espaço democrático não como uma prisão cercada por grades para evitar conflitos. Libâneo(2001, p. 137)

A tarefa da educação escolar reside na promoção da apropriação de saberes, procedimentos, atitudes e valores por parte dos alunos, pela ação mediadora dos professores e pela organização e gestão da escola. A principal função social e pedagógica da escola é a de assegurar o desenvolvimento das capacidades cognitivas, opertivas, sociais e morais pelo seu empenho na dinamização do do currículo, no desenvolvimento dos processos de pensar, na formação da cidadania participativa e na formação ética.

A preparação do aluno para níveis de escolarização mais elevados todavia, não é suficiente pois o mesmo necessita aprender para compreender a vida, a si mesmo e a sociedade ao qual pertence, estabelecendo condições para ações competentes na prática da cidadania. Sob esta ótica, o ambiente escolar, como um todo deve servir-lhe de exemplo e referência. Urge portanto que o aluno não identifique dentro dos muros da escola a reprodução das diferenças sociais com as quais é obrigado a conviver em seu dia a dia fora dos mesmos.

O trabalho do gestor numa administração democrática deve ser o de provocar mudanças no âmbito escolar é motivar professores, funcionários e alunos, valorizando-os escutando-os e depois traçando um plano de ação focando o que é prioritário. A partir daí envolver as lideranças do bairro, os meios de comunicação locais e o trabalho voluntário da comunidade. Se escolas públicas perderem o estereótipo de condenadas e recuperarem a auto-estima qualquer escola poderá ser competente, atuante e inovadora.

A participação efetiva de todos os atores na tomada de decisões; o tratamento igualitário em detrimento da desgastada política de “dois pesos e duas medidas”; a abolição em definitivo da demonização do professor; o necessário aumento da autonomia da orientação pedagógica e educacional; uma maior transparência nas resoluções e clareza das regras são, via de regra, temas a serem debatidos no dia a dia da escola.

Contudo, a necessária quebra do paradigma da gestão autoritária só se dará quando de fato assistirmos a uma reorganização do trabalho pedagógico emanada por uma equipe que trabalhe em conjunto com o corpo docente, direção e demais membros da equipe escolar, mas dotada de autonomia – no que tange as questões eminentemente pedagógicas – avaliando e reconstruindo seus projetos, planejamentos e planos.

Referências Bibliográficas:

GADOTTI, M. 1992. Escola Cidadã: uma aula sobre a autonomia da escola. São Paulo, Cortez, 140 p.
GADOTTI, M. 2002. Escola Cidadã, Cidade Educadora: projetos e praticas em processo. Porto Alegre, SMED, 76 p.
GADOTTI, M. 2002. Educação e Ordem Classista. In:
P. FREIRE, Educação e Mudança. São Paulo, Paz e Terra, 123 p.
GENTILI, P.A.A. e SILVA, T.T. 1995. Neoliberalismo, Qualidade Total e Educação-Visões críticas. Petrópolis, Vozes, 234 p.
KUENZER, A.Z. 2001. As Mudanças do Mundo do Trabalho e a Educação: Novos Desafios para a Gestão. In:
LIBÂNEO, J. C. Organização e gestão escolar:teoria e prática. 5. ed. Goiânia: Editora alternativa, 2004
PADILHA, R . P. Planejamento dialógico:como construir o projeto político-pedagógico da escola. São Paulo:Cortez;instituto Paulo Freire, 2001.
PARO, V.H. 2001. Gestão democrática da escola pública. 3a ed., São Paulo, Ática, 120 p.
VEIGA, I. P. (org). Projeto político-pedagógico da escola:Uma construção possível. 13. ed. Campinas:Papirus, 2001

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3 comentários (+add yours?)

  1. Simone Rausch
    Set 23, 2010 @ 23:24:56

    Parabéns pelo novo blog! Mesmo sendo de outro município creio que nossas realidades não são muito diferentes! o texto sobre gestão democrática está perfeito Fred.

    Responder

  2. Abigail
    Set 24, 2010 @ 08:02:20

    Infelizmente quem precisa entender todas as suas considerações não conseguiria decifrar seu texto. A proposição é ótima, o difícil é convencer os envolvidos a assumir uma postura política mais comprometida.

    Responder

  3. Flávia
    Set 24, 2010 @ 23:14:29

    Lutar pela educação, para que a escola pública não vire uma PRIVADA!!!

    Responder

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